A Força da Oração, Mística e Espiritualidade – Refletindo um primeiro exemplo bíblico.

5.1.1. PRIMEIRO EXEMPLO BÍBLICO – LIVRO DO ÊXODO CAPÍTULO 3, VERSÍCULO DE 1 a 22.
1 Ora, Moisés estava apascentando o rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Midiã; e levou o rebanho para trás do deserto, e chegou a Horebe, o monte de Deus.
2 E apareceu-lhe o anjo do Senhor em uma chama de fogo do meio duma sarça. Moisés olhou, e eis que a sarça ardia no fogo, e a sarça não se consumia; 3 pelo que disse: Agora me virarei para lá e verei esta maravilha, e por que a sarça não se queima.
4 E vendo o Senhor que ele se virara para ver, chamou-o do meio da sarça, e disse: Moisés, Moisés! Respondeu ele: Eis-me aqui.
5 Prosseguiu Deus: Não te chegues para cá; tira os sapatos dos pés; porque o lugar em que tu estás é terra santa.
6 Disse mais: Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó. E Moisés escondeu o rosto, porque temeu olhar para Deus.
7 Então disse o Senhor: Com efeito tenho visto a aflição do meu povo, que está no Egito, e tenho ouvido o seu clamor por causa dos seus exatores, porque conheço os seus sofrimentos; 8 e desci para o livrar da mão dos egípcios, e para o fazer subir daquela terra para uma terra boa e espaçosa, para uma terra que mana leite e mel; para o lugar do cananeu, do heteu, do amorreu, do perizeu, do heveu e do jebuseu.
9 E agora, eis que o clamor dos filhos de Israel é vindo a mim; e também tenho visto a opressão com que os egípcios os oprimem.
10 Agora, pois, vem e eu te enviarei a Faraó, para que tireis do Egito o meu povo, os filhos de Israel.
11 Então Moisés disse a Deus: Quem sou eu, para que vá a Faraó e tire do Egito os filhos de Israel?
12 Respondeu-lhe Deus: Certamente eu serei contigo; e isto te será por sinal de que eu te enviei: Quando houveres tirado do Egito o meu povo, servireis a Deus neste monte.
13 Então disse Moisés a Deus: Eis que quando eu for aos filhos de Israel, e lhes disser: O Deus de vossos pais me enviou a vós; e eles me perguntarem: Qual é o seu nome? Que lhes direi?
14 Respondeu Deus a Moisés: EU SOU O QUE SOU. Disse mais: Assim dirás aos olhos de Israel: EU SOU me enviou a vós.
15 E Deus disse mais a Moisés: Assim dirás aos filhos de Israel: O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque, e o Deus de Jacó, me enviou a vós; este é o meu nome eternamente, e este é o meu memorial de geração em geração.
16 Vai, ajunta os anciãos de Israel e dize-lhes: O Senhor, o Deus de vossos pais, o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó, apareceu-me, dizendo: certamente vos tenho visitado e visto o que vos tem sido feito no Egito; 17 e tenho dito: Far-vos-ei subir da aflição do Egito para a terra do cananeu, do heteu, do amorreu, do ferizeu, do heveu e do jebuseu, para uma terra que mana leite e mel.
18 E ouvirão a tua voz; e ireis, tu e os anciãos de Israel, ao rei do Egito, e dir-lhe-eis: O Senhor, o Deus dos hebreus, encontrou-nos. Agora, pois, deixa-nos ir caminho de três dias para o deserto para que ofereçamos sacrifícios ao Senhor nosso Deus.
19 Eu sei, porém, que o rei do Egito não vos deixará ir, a não ser por uma forte mão.
20 Portanto estenderei a minha mão, e ferirei o Egito com todas as minhas maravilhas que farei no meio dele. Depois vos deixará ir.
21 E eu darei graça a este povo aos olhos dos egípcios; e acontecerá que, quando sairdes, não saireis vazios.
22 Porque cada mulher pedirá à sua vizinha e à sua hóspeda joias de prata e joias de ouro, bem como vestidos, os quais poreis sobre vossos filhos e sobre vossas filhas; assim despojareis os egípcios.

5.1.2. REFLETINDO SOBRE A ORAÇÃO, MÍSTICA E ESPIRITUALIDADE DO PRIMEIRO EXEMPLO.

VERSÍCULOS 2-4 – SARÇA – FOGO QUE NÃO SE APAGA
No versículo 2 e 4 o anjo de Javé acaba sendo visto como o próprio Deus. Primeiro fala do anjo e depois do próprio Deus.
No versículo 2 e 3, Moisés capta o mistério de Deus numa sarça que está se consumindo no fogo. Mas o fogo não a apaga totalmente, fica sempre se consumindo. Deus é esse fogo que não se apaga. Nos inquieta sempre. Queima em nosso coração destruindo as nossas misérias e maldades humanas. Toca nossa consciência, principalmente quando não queremos ver a realidade de dor e de miséria dos irmãos. Seu amor é forte cheio de calor como um fogo que queima e destrói. Destrói sim o nosso comodismo, a nossa cegueira diante da dor quando causada pelo pecado humano. O fogo de Deus é permanente.
Deus insiste conosco como insistiu com Moisés que não queria assumir sua vocação.
A sarça para Moisés é sinal de Deus. Deus se revela na natureza, em coisa pequena. Para o místico e quem tem espiritualidade é assim, coisas aparentemente insignificantes nos comunica o invisível, nos comunica o grande mistério divino. Mesmo sabendo disso nem sempre esse amor divino nos vence. No mal uso de nossa liberdade humana resistimos ao amor, permanecendo em nosso egoísmo e ganância humana que nos leva ao comodismo, nos instalando nele e sentindo prazer nesta postura.
Pe. Luiz Roberto Beneditti escreveu um artigo na Revista Eclesiástica Brasileira, páginas 88 a 126, de Março de 1999 com um título bastante questionador: “O NOVO CLERO”: ARCAICO OU MODERNO? Ele lançou um estudo com pesquisa sobre a formação dos novos padres e fala num novo modelo de sacerdote. Sobre esse novo modelo constata que é pouco problematizador (no sentido de não questionar a realidade em que vivem, seja ela religiosa ou social) e, têm pouca inquietação especialmente diante dos graves problemas sociais.
Moisés disse: vou chegar perto. Frente a um Deus que nos toca, nos inquieta, nos atrai fortemente queremos a aproximação. E Moisés chega perto. Diante desse amor ele quer vive-lo na intimidade, bem próximo. Moisés atende o que Deus lhe pede e tira as sandálias, cobriu o rosto, pois tinha medo de olhar para Deus. Quando nossa experiência de Deus é profunda, nos dá um susto. Enxergar tanto amor, tanta misericórdia é belo, maravilhoso, mas é espantoso e forte demais. Como enxergar tamanha verdade estampada em nossa frente e nos deparar com as nossas misérias e fraquezas humanas. Então nos dá medo de olhar, mesmo querendo permanecer na contemplação.

VERSÍCULO 7DEUS VIU A MISÉRIA DO SEU POVO
Mesmo falando individualmente a Moisés, aqui não há um intimismo no sentido de uma experiência de Deus voltado descompromissadamente com o povo, nem da parte de Moisés e muito menos da parte de Deus. Esse Deus que o encanta não fica preso individualmente em Moisés, pois Deus viu a miséria do povo. Nem Moisés faz dessa experiência um ficar bem consigo sentindo paz interior descomprometidamente com os irmãos que precisam de se libertar de uma situação de opressão, pois são escravos no Egito. A experiência de Deus não pode significar paz e tranquilidade pessoal sem cairmos na realidade da ação libertadora do povo.
Deus, não é impassível frente ao sofrimento humano. Não quer a miséria de ninguém, e enxergar isso hoje e lutar contra a miséria, é ter MISTICA (compreendendo os desígnios de Deus, entender o seu pensamento. É aceitar sua revelação) é ter ESPIRITUALIDADE (trabalhar na transformação da sociedade, promovendo a vida humana).
O lugar do encontro com Deus foi o alto de uma montanha. Onde encontramos Deus é o nosso lugar sagrado hoje.
Em nível mais pessoal muitas vezes quando alguém mente o povo diz “Deus está vendo”. Moisés parece chegar a esta conclusão. Arranja desculpas para não libertar o povo. Mas no diálogo com Deus, não tem como mentir. Deus mostra que ele esta se esquivando. Que está vendo sua mentira, como vê as nossas quando nos esquivamos. Só que a frase popular “Deus está vendo”, para muitos, parece que Deus não está, pois têm pretextos os mais bem elaborados na ponta da língua para justificar sua falta de compromisso vocacional no sentido de responder os apelos de Deus em sua vida. É claro que quando alguém diz “Deus está vendo” faz referências normalmente para os outros que supõe estão mentindo, e não tanto para si, não acreditando no que a outra pessoa fala, e não tendo coragem ou autoridade para dizer com clareza da sua mentira recorre a Deus como autoridade, e diz num tom de brincadeira “Deus está vendo”. Mesmo assim, há um reconhecimento de que Deus vê. Vê nossas atitudes, vê nossas covardias, vê nossa falta de amor, vê nossa falta de engajamento, etc.

VERSÍCULO 7DEUS OUVIU O CLAMOR.
O nosso Deus não é um Deus distante. É mistério e sempre será, invisível, não compreensivo em sua grandeza, mas deixa ser conhecido pelo homem, ainda que de maneira pequena.
Mesmo em sua fragilidade o homem conhece a Deus e o compreende de seu modo próprio, de acordo com a cultura do seu tempo e do lugar onde se encontra. Por isso, vemos um Deus quase humano neste texto bíblico, Com boca, ouvidos, descendo, ajudando o povo a subir para uma terra onde tem leite e mel. Um Deus que sente o sofrimento do povo. Portanto, ele é visto num sentido bem simples de imagem e semelhança com suas criaturas, como se tivesse um corpo humano: fala como se tivesse uma boca humana, ouvi como se tivesse um ouvido humano e vê como se tivesse olhos como o nosso, etc. O mais importante não é Deus ser visto assim como se fosse até certo ponto um Deus com um corpo igual o nosso. O importante é que na experiência amorosa do Mistério que Moisés faz Deus lhe é familiar, é próximo, está junto na caminhada. É possível conversar com ele. Este lhe dá atenção, o vê, conversa e escuta Moisés, e também a todo o povo. É um Deus possível de ser visto e sentido na intimidade. Mais uma vez insisto intimidade não significa intimismo. Nele, reduzimos tudo ao nosso íntimo nos prendendo a um bem estar pessoal sem olhar a realidade ao nosso redor.

VERSÍCULO 8DEUS DESCEU PARA LIBERTAR O POVO.
Fala que Deus desceu até o povo. Parece que esta no alto. Ele desce. Esta junto do ser humano não para fazer-lhe uma companhia inconsequente, mas para libertá-lo. Até aqui parece que tudo vai bem dentro de nossa visão comodista: Deus vai nos libertar sem precisar de nós, sem a nossa participação. É isso que queremos hoje também que Deus milagrosamente nos arranque dos nossos problemas sem que tenhamos que nos mexer. É isso que querem muitos leigos que frequentam a igreja, nós padres e num primeiro momento quis Moisés. Calma! Moisés cai na realidade. Caiu em si e aí a grande MÍSTICA DE MOISÉS se deu. A grande experiência de Deus libertador e sua ESPIRITUALIDADE vão desenvolver, vai levá-lo a um compromisso libertador. Vê que esse Deus quer a sua participação e a de todo povo.

VERSÍCULO 10
Aqui volta a mística e espiritualidade de Moisés. Deus o quer como líder da libertação do povo da escravidão. Esta é a sua vocação. Mas a sua missão é árdua: negociar com o faraó. Rei nada bonzinho. Nada democrático. Como negociar condições de trabalho hoje, seja com os donos do capital, seja com certas autoridades que nas negociações não ouvi o clamor por salário justo e outras reivindicações. Moisés quis fugir a esse compromisso. E quem não foge de certas situações comprometedoras.

VERSÍCULOS 11-15
Esse Deus, que vê, ouve, desce, agora vai estar junto de Moisés na caminhada. E Moisés apresenta a Deus desculpas para não viver sua espiritualidade libertadora. Mas percebe que não adianta resistir. Ter consciência diante de Deus passa em acolher muitas vezes uma verdade dura. Diz Moisés quem sou eu para enfrentar o poderoso faraó. Mas Deus disse eu estou com você.
Só se engaja e se compromete de verdade quem tem esta certeza: Deus esta com ele. Estar com você aqui (Deus) não é intimismo no sentido de sentir paz espiritual e que o mundo se arrebente. Esta espiritualidade desencarnada da realidade não é proposta aqui. Deus esta conosco em função de nos dá força para viver nossa vocação que passa pela busca e a vivencia da justiça, amor e solidariedade.

VERSÍCULOS 16-22
Do versículo 16 para frente Moisés reúne os anciãos e parte para a caminhada rumo à terra prometida. Terra que Deus deu a todos para que dela vivam uma vida digna. Essa terra é a morada de todos. Esse planeta é habitação de todos os seus filhos. A caminhada foi longa cheia de problemas, mas a vitória veio. Deus esteve e está sempre na caminhada de seu povo. A Igreja tenta nos últimos anos resgatar esta mística e espiritualidade com toda a dificuldade que lhe apresenta. E por buscar novas relações democráticas do poder e modelo alternativo de sociedade não tem destaque na mídia. O contrário também vemos: uma espiritualidade desencarnada distante da experiência que fala o capítulo 3 do êxodo tem todo espaço na mídia. E isto é visível a olho nu.
A música: O Povo de Deus, de Pe. Zezinho, nos fala bem sobre a caminhada libertadora do povo Deus feita após a mística de Moisés no Monte Sinai. Veja a Música:

O POVO DE DEUS
O povo de Deus no deserto andava  / mas a sua frente alguém caminhava. O povo de Deus era rico de nada /só tinha esperança e o pó da estrada.
Ref.: Também sou teu povo Senhor estou nessa estrada Somente a Tua graça me basta e mais nada
O povo de Deus também vacilava /as vezes custava a crer no amor/O povo de Deus chorando rezava / pedia perdão e recomeçava
Ref.: Também sou teu povo Senhor estou nessa estrada Somente a Tua graça me basta e mais nada
O povo de Deus também teve fome e Tu me mandaste o pão lá do céu /O povo de Deus cantado deu graças Provou Teu amor Teu amor que não passa
Ref.: Também sou teu povo Senhor estou nessa estrada Somente a Tua graça me basta e mais nada
O povo de Deus ao longe avistou /a terra querida que o amor preparou/ O povo de Deus corria e cantava  / e nos seus louvores o poder proclamava
Ref.: Também sou teu povo Senhor estou nessa estrada Somente a Tua graça me basta e mais nada

 CONCLUSÃO

É claro que vivemos numa outra época e situação diferente de Moisés. Mas na tentativa de resgatar esta mística hoje, vemos o mesmo procedimento do povo como no passado no livro do Êxodo. Não exatamente como acontecera no antigo testamento, mas movidos pela fé, no mesmo Deus libertador, muitos se comprometem e se engajam na busca pela transformação da sociedade, na luta pela justiça, direitos humanos, etc.
Como o povo de Deus no passado muitos hoje retrocedem na caminhada fugindo uma espiritualidade próxima a do tempo de Moisés no Antigo Testamento. A música povo de Deus nos ajuda a refletir neste sentido. Por isso, muitos ao invés de permanecer na mística e espiritualidade na construção da justiça e da paz acabam se perdendo: buscando conseguir pequenas vantagens pessoais e esquecendo que a libertação é de todos. Alguns se corrompem, se vendem, traindo sua categoria e o grupo no qual está inserido, fazendo o jogo dos opressores. Por isso a música nos diz que o povo também vacilava e custava a crer no amor.
No campo da luta social o grande erro, é vermos a dissociação entre mística e engajamento social. Muitos da teologia da libertação cometem esse erro. Não estou aqui referindo aqueles que vivem a teologia da libertação na íntegra. Mas a grande maioria, de leigos, padres, religiosos, que costuma cair num certo ativismo na luta popular deixando um pouco de lado a mística.
É bom lembrar que a busca pela justiça social não se resume na teologia da libertação, e há muitas pessoas que assim fazem sem carregar a bandeira da teologia da libertação.
O deixar de lado a mística dissociando-a do engajamento leva as pessoas:

  • Transformar a luta social erroneamente em oração.
  • Não tendo mística, perdem a força, vitalidade que vem desta, facilmente havendo abandono da luta, se cansando.

O que é pior, alguns ficando num discurso libertador dissociado de uma prática libertadora:

  • E esse discurso libertador maravilhoso fica totalmente incoerente com a vida que levam. Com essa incoerência alguns se justificam que tem ideologia. E parece que é isso que é importante. Só que tê-la não resolve as questões: da incoerência, da falta de mística e nem de engajamento.
  • Alguns começam a fazer o jogo dos bastidores da política, buscando o caminho de levar vantagem na luta sem muita ética. Caindo em contradição com a causa que defendia ou defende

Muitas outras reflexões, caro amigo leitor, você poderá fazer a partir do texto do Êxodo capítulo 3,1-22. O importante que essas reflexões possa te ajudar a fazer um encontro com Deus buscando forças que vem desse encontro para o seu comprometimento pastoral e engajamento social.

 

Referência Bibliográfica:
O texto foi tirado do livro: A Força da Oração, Mística e Espiritualidade de autoria de Pe. Emanuel Cordeiro Costa. Pagina 28-35. Fundação Biblioteca Nacional – Registro: 512.640 – Livro 971 Folha: 477.

 

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