A Força da Oração, Mística e Espiritualidade – Refletindo o terceiro exemplo bíblico.

5.4.1. QUARTO EXEMPLO – EVANGELHO DE MARCOS CAPÍTULO 10, VERSÍCULOS 17 A 31
            17 Ora, ao sair para se pôr a caminho, correu para ele um homem, o qual se ajoelhou diante dele e lhe perguntou: Bom Mestre, que hei de fazer para herdar a vida eterna?

18 Respondeu-lhe Jesus: Por que me chamas bom? Ninguém é bom, senão um que é Deus.

19 Sabes os mandamentos: Não matarás; não adulterarás; não furtarás; não dirás falso testemunho; a ninguém defraudarás; honra a teu pai e a tua mãe.

20 Ele, porém, lhe replicou: Mestre, tudo isso tenho guardado desde a minha juventude.

21 E Jesus, olhando para ele, o amou e lhe disse: Uma coisa te falta; vai vende tudo quanto tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, segue-me.

22 Mas ele, pesaroso desta palavra, retirou-se triste, porque possuía muitos bens.

23 Então Jesus, olhando em redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas!

24 E os discípulos se maravilharam destas suas palavras; mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é para os que confiam nas riquezas entrar no reino de Deus!

25 É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus.

26 Com isso eles ficaram sobremaneira maravilhados, dizendo entre si: Quem pode, então, ser salvo?

27 Jesus, fixando os olhos neles, respondeu: Para os homens é impossível, mas não para Deus; porque para Deus tudo é possível.

28 Pedro começou a dizer-lhe: Eis que nós deixamos tudo e te seguimos.

29 Respondeu Jesus: Em verdade vos digo que ninguém há, que tenha deixado casa, ou irmãos, ou irmãs, ou mãe, ou pai, ou filhos, ou campos, por amor de mim e do evangelho, 30 que não receba cem vezes tanto, já neste tempo, em casas, e irmãos, e irmãs, e mães, e filhos, e campos, com perseguições; e no mundo vindouro a vida eterna.

31 Mas muitos que são primeiros serão últimos; e muitos que são últimos serão primeiros.

5.4.2. REFLETINDO SOBRE A ORAÇÃO, MÍSTICA E ESPIRITUALIDADE – NO QUARTO EXEMPLO

OUTROS TEXTOS BÍBLICOS SOBRE ESTE ASSUNTO
            Existem outros textos paralelos a estes, em Mateus e Lucas com as particularidades de cada evangelista. Mesmo com suas particularidades vemos alguém que experimenta o amor de Deus e não consegui viver esse amor na radicalidade faltando-lhe a espiritualidade.

Algumas particularidades de cada evangelista:

Em Mateus capítulo 19, versículos 16 a 30, fala que um jovem dirigiu a Jesus. Lucas capítulo 18, versículos 18 a 28, fala de uma pessoa importante, e em Marcos, de um homem que foi correndo e ajoelho-se diante de Jesus.

Obs.: Minha reflexão daqui para frente dentro deste subtítulo (5.4.2.) será sobre o evangelho de Marcos citado acima (Marcos 10, 17-31)

VERSÍCULO 17-20
                A pessoa que vai ao encontro de Jesus de início já trás consigo uma experiência de Deus. Diz o texto do evangelho que: alguém correndo, ajoelhou-se diante de Jesus. Esta atitude de ajoelhar-se é forte. Diz a Jesus bom mestre e quer herdar a vida eterna. Este pedido só pode ser dirigido a Deus e a resposta só pode vir dele. Reconhece em Jesus alguém que pode lhe dar a vida, saciar sua sede do absoluto. Esse homem é alguém que vive os mandamentos. Tem certa religiosidade.

Ele percebe que o que faz é pouco. E o que oferecemos a Deus hoje? Podemos oferecer e fazer mais do que fazemos? Quem sabe observamos também os mandamentos: não matamos, não roubamos, respeitamos nossos pais, etc. Então o que falta fazer? Jesus responde propondo uma mística e espiritualidade mais profunda.

Veja a parábola tirada do evangelho de São Mateus capítulo 25, versículos 14 a 30:
14 Porque é assim como um homem que, ausentando-se do país, chamou os seus servos e lhes entregou os seus bens: 15 a um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um, a cada um segundo a sua capacidade; e seguiu viagem.

16 O que recebera cinco talentos foi imediatamente negociar com eles, e ganhou outros cinco; 17 da mesma sorte, o que recebera dois ganhou outros dois; 18 mas o que recebera um foi e cavou na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.

19 Ora, depois de muito tempo veio o senhor daqueles servos, e fez contas com eles.

20 Então chegando o que recebera cinco talentos, apresentou-lhe outros cinco talentos, dizendo: Senhor, entregaste-me cinco talentos; eis aqui outros cinco que ganhei.

21 Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel; sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

22 Chegando também o que recebera dois talentos, disse: Senhor, entregaste-me dois talentos; eis aqui outros dois que ganhei.

23 Disse-lhe o seu senhor: Muito bem, servo bom e fiel; sobre o pouco foste fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor.

24 Chegando por fim o que recebera um talento, disse: Senhor, eu te conhecia, que és um homem duro, que ceifas onde não semeaste, e recolhes onde não joeiraste; 25 e, atemorizado, fui esconder na terra o teu talento; eis aqui tens o que é teu.

26 Ao que lhe respondeu o seu senhor: Servo mau e preguiçoso, sabias que ceifo onde não semeei, e recolho onde não joeirei?27 Devias então entregar o meu dinheiro aos banqueiros e, vindo eu, tê-lo-ia recebido com juros.

28 Tirai-lhe, pois, o talento e dai ao que tem os dez talentos.

29 Porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado.

30 E lançai o servo inútil nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes. 

Nesta parábola diz: alguém tinha cinco talentos e produziu mais cinco, outro tinha dois e produziu mais dois e um que tinha um não produziu nada guardando o pouco que tinha. Ensina-nos que Deus pede de nós o que podemos oferecer. Quem tinha um talento ele não pediu 4 e nem 10, apenas que produzisse mais um. Mas o pouco que podia ter produzido, não produziu. Então Deus reprovou sua atitude, lhe faltou mística e espiritualidade, faltou se lançar na luta colocando os seus dons a serviço de um mundo melhor.

Esta postura de acomodação nos impede de uma vivência mística e de uma espiritualidade

É claro que em Mc 10,17-31 a pessoa possui muito. Mas é possível quem tem muito fazer coisas na proporção do que tem. Quem tinha um talento não teve coragem de se lançar. O que tinha muitos bens no evangelho de Marcos não deu seus bens aos pobres para seguir Jesus. Nestes dois casos faltou uma mística profunda que passasse pela conversão. Pois esta exige de nós total confiança em Deus. Confiança que não quer dizer passividade frente ao amor grandioso de Deus. A mística nestes dois casos não levou a espiritualidade. Portanto, em Mc10, 17-31 e a Mt 25,14-30 (um talento), faltou espiritualidade, mesmo tendo fé em Deus, um pouco de mística e um pouco de vivencia dos mandamentos religiosos.

VERSÍCULO 21
Jesus pede que este moço dê o dinheiro aos pobres, por que sabia que esse pedido podia ser atendido. Como na parábola dos talentos pediu o que cada um podia produzir. Mesmo sendo muito, Jesus sabia que é possível um gesto mais radical. Ele não nos pede o que não damos conta. Lembrando a parábola dos Talentos, pediu o que cada pessoa podia produzir.

Jesus olhou para este que vem ao seu encontro com amor, e fez uma exigência mais radical: vender o que tinha e dar aos pobres. E lhe garantiu: terás um tesouro no céu! Quem não quer o céu! Quem não quer a vida eterna e era isso que ele buscava. Mas não quis praticar com radicalidade e percorrer o caminho que lhe levasse a isso.

Em outra passagem do evangelho Jesus diz que onde está o seu tesouro ai está o seu coração (Evangelho de Lucas capítulo 12, versículo 34). Aqui o tesouro desse homem está nos bens materiais. Parece que os bens materiais lhe bastam em si mesmo. Parece que lhe dá toda a segurança lhe dando a felicidade. A felicidade duradoura e perfeita só em Deus, no céu. Então a riqueza tornou-se absoluta, um ídolo que o adorava. Daí perder a grande riqueza por falta de entender que é no encontro com o absoluto que está a verdadeira riqueza. A única e definitiva riqueza: Deus: isto é mística.

 CONCLUSÃO SOBRE OS QUATRO PRIMEIROS EXEMPLOS BÍBLICOS
                Tanto na experiência de Deus de Moisés, na oração do Pai Nosso quanto na multiplicação dos pães e nesta passagem do evangelho de alguém que não quer dar sua riqueza aos pobres, não vemos em nenhuma das quatro passagens bíblicas uma experiência de *êxtase, para dizer encontrei Deus. Ninguém aqui ficou flutuando no alto como estivesse nas nuvens, quase hipnotizado. Não vemos aqui gritarias, fortes emoções, nem gritos de aleluias, améns, glória a Deus, Jesus seja louvado, nem repetições e repetições, nem muito falatórios, nem fechar os olhos, nem cair no chão e nem bater no peito. Faço essa observação, por que muitas vezes esse procedimento que mencionei é comum em certas práticas religiosas, especialmente na igreja eletrônica, o que cria certos *estereótipos na cabeça das pessoas quanto a experiência de Deus. Nestas quatro passagens bíblicas vemos contrariar esses estereótipos.

É claro que a experiência de Deus pode se dá de vários modos, também num momento de êxtase.

Em Mc 10,17-31 há um encontro direto com Jesus na simplicidade e feito de maneira muito natural dentro da normalidade e costumes da época, sem nenhum estardalhaço sobre encontrei Jesus!

Não estamos vendo nestes quatros exemplos bíblicos nada de extravagante, fenomenal, extasiante, etc.

Mesmo levando em conta a experiência de Moisés onde há coisas diferentes: sarça que se consome e fogo, e este tinha um simbolismo que comunica a divindade. Mas a sarça é um vegetal simples sem nenhum mistério de princípio e que lhe comunicou Deus. Mesmo o fogo com seu simbolismo era algo comum na vida deste povo.

Vemos nos quatros exemplos bíblicos uma experiência grandiosa de Deus que levam as pessoas a espiritualidade ou não dá conta de vivê-la, como no caso da pessoa que não repartiu sua riqueza aos pobres.

Vemos que é na simplicidade, nas coisas simples que o absoluto se revela.

E quanto mais humano formos mais aproximamos do mistério: Deus.

Ele é muito mais simples e natural e não tão cheio de mistérios para podermos nos colocar no caminho de espiritualidade.  Não uma espiritualidade desencarnada: flutuando no mundo das nuvens, precisando de êxtase, para vermos coisas do outro mundo para dizer encontrei Deus.

Encontrá-lo é mergulhar no mais profundo da vida, nas coisas mais simples e corriqueiras. É claro que Jesus faz curas. Nem sempre também os curados fazem uma experiência profunda de fé por que foram curados. Se assim fosse só pelas curas que viram Jesus fazer teriam todos se convertido e abraçado a fé, seguindo-o.

É sabido que na experiência de Deus gostamos muitas vezes de contemplar o mistério e não há nada de errado nisso. Tanto assim que nós católicos temos um verdadeiro encontro com Jesus no santíssimo sacramento. E o nosso povo sente bem com essa prática que alimenta e nutre sua fé.

Mas o que quero frisar aqui é que na própria sagrada escritura temos práticas muitos variadas e simples de espiritualidade. Simplicidade não quer dizer falta de compromisso e seriedade.

E além das nossas práticas católicas temos inúmeras outras maneiras das pessoas viver o mistério de Deus em seu coração. E o homem pode fazer essa experiência a qualquer momento, em qualquer lugar e situação sem necessidade muitas vezes de estar numa grande concentração em grandes louvores.

  

Referência Bibliográfica:
O texto foi tirado do livro: A Força da Oração, Mística e Espiritualidade de autoria de Pe. Emanuel Cordeiro Costa. Pagina 44-49. Fundação Biblioteca Nacional – Registro: 512.640 – Livro 971 Folha: 477.

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