Espiritualidade

Espiritualidade -(Frei Prudente Nery Ofm-cap.)

Lamentavelmente nós reduzimos não apenas o conceito, mas também o conteúdo daquilo que chamamos ESPIRITUALIDADE a determinadas práticas religiosas convencionais, como as devoções da piedade popular (rosário, hora santa, procissões etc..) e as sacrossantas e tradicionais formas da piedade católica (ofício divino, sagrada eucaristia etc..)

Espiritualidade, digamos mas claramente, outra coisa não é senão –  Cultivo das coisas do Espírito. Temos por isso que distinguir entre Espiritualidade enquanto formalização ou solidificação ritual, verbal, géstica, institucional, de seu fenômeno originário, a saber, a Espiritualidade enquanto o cultivo das coisas do Espírito.

No subsolo de toda forma institucionalizada há sempre uma experiência espiritual que deu origem às formalizações da experiência espiritual… se queremos repensar e reavivar nossa espiritualidade, é de magna importância que lancemos o olhar de nossa atenção para esta dimensão de nosso existir: o ESPÍRITO, as suas manifestações e o cultivo de suas expressões…

Permitam-me que eu comece esta nossa manhã de reflexão sobre a espiritualide citando um dos mais sensíveis pensadores de nosso tempo… Antoine Marie Roger de Saint Exupery. Este poeta francês se tornou mundialmente conhecido por uma obra de rara beleza humana “O Pequeno Príncipe”., obra por ele escrita exatamente entre os anos de 1939-1943, quando a Europa se encontrava no meio do pesadelo da Segunda Guerra Mundial, tempo em que os mais sagrados valores humanos vacilavam como que sacudidos por um terremoto, enquanto os homens se banhavam numa orgia de sangue. Foi deste tempo de um profundo vazio existencial e de amargas decepções pessoais que Saint Exupéry gerou seu “Pequeno Príncipe”, este poema de delicadeza humana, esta cantilena sobre a sacralidade do amor humano, talvez a mais bela deste nosso século XX.

Nesta mesma época, Exupery escrevia a uma general, seu amigo, uma carta, com o seguinte conteúdo:

– “Hoje estou profundamente triste – profundamente triste por minha geração, esvaziada de toda substância humana, que só conhece bares, matemática e carros de corrida como forma de espírito e vida, atrelada a um ativismo heroico, mas sem cor.

E ninguém nada percebe! De toda minha alma: eu odeio esta época. Nela o homem morre de sede. Ah, Senhor general, só há um problema, um único problema no mundo. É como devolver aos homens um sentido, uma inquietude de espírito, fazer orvalhar sobre eles algo como um canto gregoriano. Veja, não é possível viver de refrigeradores, de política, de balancetes e palavra cruzadas. Não é possível viver sem poesia, sem cores, sem amores. Dois bilhões de homens só escutam as máquinas, só compreendem as máquinas e tornar-se-ão, um dia, também eles, máquinas. Os laços de amor que atam os homens de hoje às coisas e as seres humanos tornaram-se tão frouxos, que os homens já não percebem mais as ausências. Até a morada dos homens é apenas um amontoado de objetos… e a esposa, e a religião e o partido. Não se pode ser nem mesmo infiel. De quem ser distante e a quem ser infiel, se não há proximidade e tudo é um deserto de homens? Amputaram-nos os braços e as pernas e declaram-nos livres para ir por aí. Eu odeio esta época, na qual o homem se degrada a um animal delicado, tranquilo e cortez. O que será de nós, os desta época, do homem que foi defraudado de sua força criativa, que já não consegue bailar, nem cantar, que é tratado com a cultura de padronização como gado de corte com feno e capim?”

É o desabafo triste e lutuoso de um espírito, talvez um dos mais sensíveis deste século.

Não é possível para nós, humanos, viver humanamente numa cultura dos números apenas, do comércio apenas, da produção lucrativa, das análises quais e formais das ciências, do cumprimento das obrigações e responsabilidades apenas… não dá para viver apenas pelo e com o pão que alimenta o nosso corpo… pois este é o nosso problema central: somos homens e isto equivale dizer: temos e trazemos em nós um coração que tem também sua fome e uma alma que tem também sua sede!

É preciso para usar esta tão bela quanto precisa palavra de Exupery, é preciso fazer orvalhar sobre o mundo e os homens algo como um Canto Gregoriano

Mas e isto, o que seria: um canto gregoriano sobre o mundo. Talvez que fossemos no mundo a permanente recordação e fossem nossas palavras como que cantilenas que, em suave melodia, transformassem os homens ao convívio com o infinito mistério do mundo e dos homens… Deus mesmo!

Mas antes de falarmos de Deus com nosso vocabulário tipicamente grandiloquente, creio que é urgente, hoje mais que em outros tempos, que recuemos… que tentemos soletrar primeio a palavra Deus… que fiquemos um pouco mais modestos, sóbrios e humildes. De Deus, no mundo, não temos mais que apenas delicados vestígios, acenos apenas, ou se quiserem, sacramentos, isto é, uns poucos ou muitos sinais que nos fazem, aqui e ali, perceber que estamos cercados, todos por um mistério pródigo e generoso.

É preciso que (re)aprendamos a buscar:

  • No eminentemente profano – o sagrado;
  • No apenas ordinário – o extraordinário;
  • No ir e vir de nossos dias, belos ou pesados como chumbo – o leve sussurrar da eternidade.

Ou para dizê-lo de outra forma:

”Urge que aprendamos a ver um mundo num grão de areia, o céu numa flor silvestre. Segurar o infinito na palma da mão e a eternidade em uma hora!”

 

Eu dizia: espiritualidade é o cultivo das coisas do espírito. Mas o que é isto: o Espírito? Mais uma vez eu cito Exupery. Na sua obra a Terra dos Homens, ele narra numa breve passagem a tragédia de Guillaumet… piloto dos correios aéreos franceses, Guillaumet sofre um grave acidente com seu avião na cordilheira dos Andes. Contra todas as esperanças, Guillaumet se salva. Outra vez entre os homens, ele conta como sobrevivera: ferido e quase congelado pelo frio, ele se levantara, para se arrastar sobre a neve, para cair novamente e se reerguer… para finalmente reencontrar vida. Salvo, ele diria aos seus amigos: “o que suportei, palavra que nenhum bicho suportaria, só um homem seria capaz de suportar”. Ele tem razão: só o homem é capaz de, sustentado pelo tênue fio de uma esperança, superar os seus limites, ir além de suas próprias capacidades físicas… só o homem é capaz de, em situações  em que tudo parece completamente perdido, de crer que o que era ou parece impossível talvez seja possível.

É como se existisse no homem, no mais profundo dele mesmo, algo que o empurrasse e o levasse a gestos e atos que vão muito mais além do que conseguiriam suas forças físicas apenas…

Esta capacidade humana de saltar sobre seus próprios limites e limitações, entre desejo de viver eternamente, entre saudade do infinito que reside nas camadas mais fundas de nosso ser, esta força que fortalece os braços, robustecendo-os na busca do que é mais do que vêem os nossos olhos fenomênicos e sensuais, é isto que a tradição ocidental chamou de ESPÍRITO, o infinito em nós, o transcorpóreo, o que nos leva para além de tudo aquilo que é sensível e que está aí.

É o que somos – não apenas estes seres limitados, trancados nas fronteiras de nossas circunstâncias… Somos enamorados de esperanças, fragmentos de futuro, esboços de uma obra de arte, sinfonias inacabadas, vagabundos eternos, peregrinos entre o infinito de onde viemos e o infinito para onde vamos. Nós não somos animais para os quais baste ter o que comer, como se virar no inverno, como proteger sua subsistência.

Há no homem, à diferença do animal, exatamente isto: uma resistência indomável à aceitação pura e simples da realidade… é o espírito em nós: quando nos rebelamos contra o sofrimento, quando choramos, quando lutamos contra as injustiças, quando bailamos, quando perdoamos, quando cantamos, quando amamos…

ESPIRITUALIDADE consiste primariamente não na recitação piedosa e humilde de determinados exercícios devocionais religiosos…, mas num modo de se posicionar na vida e ver todas as coisas. Olhar o mundo com os olhos do coração, ver o sagrado mistério da realidade…

Que aprendamos todos: o sagrado não é contraposto ao profano… Deus não é o adverso do humano e do mundo, mas o profano, ele mesmo, no seu último mistério e beleza… aquilo que, de realidade, não vemos com o olhar de nossa face… mas que percebemos e intuímos com o ocular de nossa sensibilidade… aqui residem os primeiros acessos de um infinito mistério de beleza e bondade.

São vislumbres apenas o que vemos de divino em nosso mundo… e dependendo do modo como olharmos, tudo fala Dele, é Dele um sacramento: o trabalho, o pão, o vinho, a água, a dança, as canções, as carícias, o vento, os pássaros, os lírios do campo, o cheiro de terra depois da chuva, o terno olhar da amada e seus lábios úmidos de volúpia e desejos inconfessos, o descanso, a luta, os sonhos do Reino dos Céus… De Deus falamos quando –

ao sorrir e ao lutar,

ao acariciar e plantar,

ao brincar e oferecer-se em holocausto pela justiça, percebemos que tudo isto não é senão nossa humilde confissão e balbucio de uma nostalgia infinita.

É urgente que deixemos de fantasiar Deus… como se ele aqui e acolá estivesse, preso a determinados lugares, encarcerado numa determinada linguagem, enclausurado em certos conceitos, atado ao saber e ao saber de seus ministros. Antes – é preciso que percebamos Deus sempre…

– brindar ao absoluto numa caneca de água fresca ou num copo de cerveja gelada, no verão;

– na solidão de nossos próprios vazios e lágrimas, na dor e sofrimento dos outros.

Tudo é sacramento revelados do mistério: a lesma na estrada, a formiga do caminho, o leproso, as andorinhas, a fome, a sede, a vida, a morte. Ver as coisas nessa profundidade e constante referência com o mistério é viver no Espírito…

Se existem as regras, as doutrinas, as verdades de fé, as orações sacralizadas é para que sejamos conduzidos à inefável experiência que nos enche de alegria o coração.

Tudo é sagrado, quando tudo olhamos com o olhar de Deus. A ordem do mundo é como uma obra poética e a grandeza do homem não é outra senão recitar, em sua vida, um tal poema.

Deus, pensava os gregos, é Pietes, criador e porta ao mesmo tempo e seu grande poema é o Universo. Quanto maior nosso intro-visão nos mistérios deste mundo, mais apto estará o espírito a bailar em harmonia com o universo…

Podemos trabalhar na promoção humana, devemos nos engajar com e pelos pobres, é-nos permitido dar assistência aos homens e trabalhar duramente com nossas mãos. Mas se o fizermos sempre nesta permanente referência ao Mistério, estaremos sendo cristãos. Os homens buscam famintos e insaciáveis pessoas que consigam fazer referência contínua e lhes mostram a profundidade das coisas. O que o mundo hoje precisa é de homens do Espírito… toda atividade sem este espírito é Ativismo…

Por isso Espiritualidade consiste não tanto em construir isto ou aquilo como novas formas de rezar, ou de reorganizar nossos métodos e modelos devocionais… mas em ativar uma tal atmosfera, na qual pudéssemos ver tudo pela raiz, tentando sempre de novo recolher-nos na beleza de cada coisa, pequena ou grande, fascinante ou insignificante.

(texto transcrito de palestra proferida – sdl)

 

Obs: Frei Prudente faleceu em junho de 2009 em Uberlândia. Era capuchinho e renomado teólogo no Brasil.

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