E a 4ª Romaria das Águas e da Terra se fez profecia

Domingo da Ascensão do Senhor, 2 de junho de 2019, um dia que jamais se apagará da memória e do coração da Diocese de Itabira – Cel. Fabriciano; sobretudo dos milhares de Romeiros e Romeiras que percorreram longas distâncias, madrugaram, para estar presente nesta grande Romaria.

A 4ª Romaria das Águas e da Terra da Bacia do Rio Doce foi uma caminhada de profetismo e Esperança… Um caminho que começou a ser sonhado e construído em Ponte Nova, 2018, quando nossa Diocese assumiu oficialmente ser anfitriã. Encontros, projetos, planejamentos começaram a ser tecidos até definirmos o Lema deste ano: Vão-se os bens da criação, ficam miséria e destruição! E agora, José? E assim movidos pelo convite e compromisso de defender a Vida, cuidar e preservar “Nossa Casa Comum”, neste contexto de Mineração depredatória, pessoas de boa vontade, Romeiros, militantes de nossa Província Eclesiástica, de dioceses da Bacia do Rio Doce e dioceses que se fizeram solidárias uniram suas vozes em preces, louvores, súplicas, denúncias e anúncio pela vida, em especial do povo de Itabira, em risco eminente de serem mais um povo vitimado pela ganância da Vale.

E a Romaria foi ganhando corpo, em poucos minutos após as 7h, tínhamos milhares de romeiros de toda Província Eclesiástica (Dioceses de Caratinga, Valadares, Mariana e nossa Diocese), também da Bacia do Rio Doce: Guanhães, Colatina. Vieram também de Belo Horizonte, Leopoldina… Tivemos presença forte dos indígenas, dos ribeirinhos, dos pescadores e de todos que compõem a vida dos mais pobres às margens do ex rio Doce, hoje totalmente destruído pela lama. E a Vale tentou intimidar e impedir nossa Romaria, mas não são pilhas de tubos, nem buracos no caminho que impedem a determinação de um povo que tem Fé e certeza de que Deus está do lado dos pobres e oprimidos, e quando o povo se organiza, consciente de seus direitos e comprometidos com a causa da Vida e da Justiça a vitória vem. Deus é comunhão.

Na mística da Romaria, a acolhida, a saudação a todos movimentos presentes, fala de lideranças, ainda no ponto de concentração, em frente ao Campo do Valério do Rio Doce… A Cruz da Romaria feita em um rústico bambu, reforçando a força da união de um povo que verga, mas não quebra, que se refaz e se organiza a cada desafio… A Romaria é o povo que marcha em anúncio e denúncia, mas sobretudo um povo portador de Esperança e consciência de que somos uns pelos outros sempre….

O ato lembrou a dor de todos os atingidos pelo rompimento da barragem de Fundão, em 2015, e fez memória ao crime que vitimou mais 300 em Brumadinho. Algumas pessoas que viveram essas tragédias participaram da romaria, deram seus depoimentos e uniram-se às vozes de tantos outros, aterrorizados pela possibilidade de novos desabamentos de barragens, como o povo de Barão de Cocais.   Dom Marco fez prece especial e pediu por todos: “Queremos ser solidários com cada irmão e irmã que perdeu sua vida. Com cada família que chora a ausência de seu parente. Queremos lembrar daqueles que estão escritos aqui nas cruzes, mas também daqueles que estão escritos em nossos corações. Queremos ajudar os nossos irmãos a carregarem as suas cruzes” disse o bispo. E ali foram deixadas fincadas na rotatória e afixadas na cerca, como memorial aos que foram vítimas e um apelo a não se repetir “Mar de Lama” nunca mais…

A Romaria encerrou com a celebração da Eucaristia celebrada pelo Bispo Diocesano D. Marco Aurélio e o Bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, D Vicente. Gesto concreto e envio com a leitura da carta Compromisso, apresentação do abaixo assinado contra o alteamento da Barragem de Itabiruçu e o lançamento do mês verde proposto pela Pastoral da Juventude com a entrega de mudas com os nomes dos mortos de brumadinho e mariana.

E a Romaria se fez profecia… Cerca de 6000 romeiros,  um só corpo, um coração, olhos na contemplação da força e poder do povo que se une em preces, denúncia, anúncio e missão de fazer vencer a Esperança, uma grande certeza: Juntos somos sempre mais e sempre devemos ser uns pelos outros. Assim a Graça de Deus age e nos conduz.


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