DOMINGO DE PENTECOSTES

Leituras: At 2.1-11

     SI 103

     1Cor 12,3b-13 ou Rm 8, 8-17

     Jo 20,19-23 ou 14151623 b-26                    

  1. Situando-nos

A Solenidade de Pentecostes acontece 50 dias após a Páscoa e é reconhecida como a festa do início da Igreja, porque comemora a descida do Espírito sobre os discípulos reunidos e seu envio. Essa data de início é simbólica, uma vez que Jesus mesmo enviara os discípulos várias vezes, antes da ressurreição. Após a Ascensão do Senhor, os discípulos e seus ouvintes, animados pelo Espírito, difundiram a mensagem do Evangelho, iniciando o caminho de construção da Igreja da qual hoje fazemos parte.

  1. Recordando a Palavra

A primeira leitura deste dia é a narrativa de Lucas – autor dos Atos dos Apóstolos – sobre o envio do Espírito Santo sobre os Apóstolos. Inicia-se com um marco temporal importante: “Tendo-se completado o dia de Pentecostes” (At 2,1). Lucas se importa em situar as narrativas das boas novas de Jesus também em relação ao contexto judaico para mostrar que é com ele que a Aliança se torna restaurada, definitiva. Nesse episódio, isso acontece de modo especial: Pentecostes – um título de origem grega – era uma festa já existente no calendário judaico, mas conhecida como Festa da Colheita.  Além de marcar um tempo de colheita, ela acabou se tornando uma festa de renovação da Aliança, como atesta 2Crônicas (15,10-13). O mesmo sentido será retomado para o contexto cristão porque é neste dia que Jesus cumpre uma de suas promessas, a do envio do Espírito. Ele renova, assim, a Aliança já estabelecida desde sua encarnação.

Atos (2,1-11) não é a única narrativa a respeito da descida do Espirito sobre os discípulos e seu envio. Também podemos encontrá-la em Marcos (16,15-18); Mateus (28,16-20) e, de modo mais claro, em João (20,19-23), que é o Evangelho deste dia. É importante perceber que o Espírito Santo não foi enviado sobre os discípulos uma única vez, mas esteve com eles em diversos momentos de seu ministério e continuou descendo sobre a Igreja até os dias de hoje. As narrativas que lemos na liturgia deste dia objetivam, pedagogicamente, mostrar os atributos do Espírito. Sua vinda sobre a comunidade pode se dar de maneira silenciosa, como um sopro, ou em grandes manifestações, como as línguas de fogo.

A narrativa lucana dos Atos dos Apóstolos faz lembrar a história de Babel (Gn 11). Lá, a comunidade também estava reunida, mas, pretensiosa, objetivava se tornar maior do que Deus. Seus dons diferentes – as línguas diversas – apenas confundiram seus propósitos e impediram sua comunicação, provocando a desunião. Nos Atos dos Apóstolos, a comunidade reunida tem o propósito de se assemelhar aos valores deixados por Jesus, e os diferentes dons suscitados apenas contribuirão para que a comunhão de suas vidas se torne fecunda e leve adiante a missão da Igreja.

Aliás, é este o tema da segunda leitura (1Cor 12,3b-13). Os diferentes dons concedidos pelo Espírito visam a unidade da Igreja e nos ajudam – a nós que somos a Igreja – a mostrar, com nossas vidas, que Deus não se manifesta de uma forma única. Ele se mostra em diversas faces, responde a diversas necessidades, expressa-se em várias línguas, faz-se ver por todas as pessoas. Os diferentes dons concedidos pelo Espírito refletem seus diversos atributos, que não deixam desamparada nenhuma circunstância de nossa humanidade.

A narrativa do Pentecostes nos Atos dos Apóstolos visa atestar também a universalidade da mensagem de Jesus. O Evangelho Vivido por Jesus na Palestina era testemunhado por poucas pessoas. Nos episódios dos Evangelhos podemos nos perguntar sobre o lugar das outras nações. Em Atos, todos são testemunhas das maravilhas anunciadas pelos discípulos. O fenômeno da glossolalia – a pronúncia de várias línguas – é controversa, mas pode ser entendida como a diversidade de linguagens que comunica o Evangelho. A glossolalia não precisa ser somente a pronúncia de outras línguas além do grego e do hebraico conhecidos, mas também a expressão do Evangelho através das linguagens universais do amor, da justiça, da misericórdia. O Espírito anima a vivenciar o Evangelho, e não só anunciá-lo com palavras a uma comunidade restrita, fechada em um ambiente. O Espírito impele a abrir as portas, a sair, ir a lugares e pessoas distantes. Impele à ousadia de arriscar-se ao desconhecido em favor do Evangelho.

  1. Atualizando a Palavra

Em nossos dias, podemos repensar nossa relação com a terceira pessoa da Santíssima Trindade, que protagoniza a celebração de hoje. O Espírito Santo – ruah do Antigo Testamento, pnêuma na Igreja primitiva – tinha uma expressão concreta de força criadora, espírito de renovação, sustentáculo da Aliança e expressão da ação concreta de Deus. Descendo sobre nós no nosso Batismo, torna-nos cheios como esteve Maria na Anunciação. Mais do que esperar que o Espírito venha a nós e pedir sua assistência, devemos confiar na sua companhia constante e assumir os efeitos e compromisso de sua estadia conosco. Se ele nos impele a sair de nossas seguranças, devemos sair. Se ele nos impele a anunciar o Evangelho, devemos anunciar. Se ele é o fogo da transformação radical, devemos estar abertos a transformar nosso coração. Se ele é o sopro silencioso do dia a dia, devemos deixar de esperar sinais milagrosos e reconhecer o Deus que está sempre conosco, e fala no silêncio dos acontecimentos.

  1. Ligando a Palavra com a ação litúrgica

A ação do Espírito está presente do início ao fim da celebração eucarística, porque todas as invocações e súplicas respondem a um modelo trinitário. Comungar do corpo e sangue do Senhor nos coloca também em comunhão com seu Espírito, aquele que concede sabedoria e fortaleza, que nos anima para a missão, que sonha o ideal do amor verdadeiro. É também por sua força que somos capazes de participar desta comunhão e fazê-la real na Igreja. Após a bênção final da celebração eucarística, somos enviados. Que cada participante da assembleia possa ser conclamado a repetir em sua vida, em sua família e em seu trabalho, o mesmo que os discípulos inflamados pelo Espírito fizeram: tornaram o Evangelho conhecido, palpável, encantador e transformador.


Fonte: “Ressuscitou de verdade! Aleluia! Aleluia! ” – Roteiros Homiléticos para o Tríduo Pascal e Tempo Pascal – abril/ junho – Ano 5 – nº 23 – p. 58-61 – Edições CNBB – 2019 ano C.

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