SOLENIDADE DO SANTÍSSIMO CORPO E SANGUE DE CRISTO

20 de junho de 2019

Leituras: Gn 14, 18-20 / Sl 109(110)1.2.3.4 / 1 Cor 11,23-26 / Lc 9,11b-17

“TODOS COMERAM E FICARAM SATISFEITOS”

  1. Situando-nos

Iluminados pelo Evangelho de São Lucas, celebramos o dom do Sacramento da Eucaristia, ceia prodigiosa pela qual o Senhor Ressuscitado alimenta e sacia a vida e a missão da Igreja (Evangelho).

A Liturgia de hoje nos convida a compreender o Mistério da Eucaristia como antecipação do banquete do Reino de Deus (Evangelho). O Cristo, Rei e Sumo-Sacerdote, vem ao nosso encontro no “pão” e no “vinho” (primeira leitura). Entronizado e constituído Sacerdote eternamente (salmo) pela Ressurreição, deixou para sua Igreja o memorial de amor pela paixão-morte e ressurreição (segunda leitura). A Igreja apostólica deve continuar a dispensar o dom da Eucaristia, alimentando o povo de Deus anunciando a morte redentora de Cristo até que Ele venha.

  1. Recordando a Palavra

O Evangelho de hoje narra a multiplicação dos pães por Jesus, seguindo o esquema básico de relatos de milagre: 1) aproximação de Jesus e do povo (Lc 9,10-11); 2) surgimento e indicação da necessidade (Lc 9,12); 3) preparação da cena do milagre (Lc 9,13-15); 4) realização milagre (Lc 9,16) e 5) a conclusão em forma de constatação do milagre (Lc 9,17).

A forma como o acontecimento é narrado, porém, demostra que para o evangelista, o sentido da “multiplicação dos pães” deve ser compreendido à luz do mistério da Eucaristia. Do mesmo modo, a fé eucarística deve ser iluminada pelo significado da multiplicação dos pães dentro de uma sequência de eventos acontecidos “ao redor da mesa”. Juntas, essas narrativas de “ceias” formam a mensagem de Lucas sobre a comensalidade no Reino de Deus.

O contexto narrativo. Lucas situa a narrativa da multiplicação dos pães entre os últimos acontecimentos do ministério de Jesus na Galileia. A partir de Lc 9,51, começa sua grande jornada para a paixão. Antes disso, Jesus volta sua atenção para a comunidade dos doze discípulos. Quer capacitá-los para fazer o que ele mesmo faz: por isso os enviou para anunciar o Reino de Deus e curar os enfermos (Lc 9,1-6). Notícias da missão de Jesus chegam até Herodes e indicam a rejeição violenta que o Cristo sofrerá em Jerusalém (Lc 9,7-9). A pergunta “Quem será então este, de quem ouço contar essas coisas?” (Lc 9,9) prepara o caminho para a confissão de Pedro e o convite para que os discípulos carreguem a cruz no seguimento de Jesus (Lc 9,18-27), ambos ocorrerão logo após a narração da multiplicação dos pães (Lc 9,10-17). Desse modo, o Evangelho de Lucas relaciona a multiplicação dos pães com o que vem antes (a missão na Galileia) e o que vem depois (a profissão de fé em Cristo e o seguimento para a cruz).

1) Na introdução, Jesus, os discípulos e a multidão se encontram no lugar deserto (Lc 9,10-11). Os apóstolos (enviados) regressaram da missão e relatam a Jesus tudo que fizeram (v. 10). Apesar de Jesus os conduzir para descansar em um lugar à parte (v. 10), “um lugar deserto” (v. 12) próximo de Betsaida, as multidões os seguem e o próprio Jesus anuncia o reino e as cura (v. 11). Desse modo, os temas do “anúncio do Reino” e da “cura dos enfermos” sintetizam o ministério de Jesus e dos apóstolos.

2) Em Lc 9,12 surge uma necessidade, “o dia declinou” e os Doze Percebem que a multidão está faminta e sem abrigo, pedem que o próprio Jesus as despeça para que procurem hospedagem e alimentação. A expressão “o dia declinou” ocorre também na narrativa da aparição do Ressuscitado aos discípulos em Emaús (Lc 24,29), indicando a hora da refeição da tarde (na cultura romana período da refeição principal estava entre 15h e 18h). A multidão que seguiu Jesus, escutou o Evangelho e foi por ele curada, precisa ser alimentada. A ação dos Doze indica que se trata de uma iniciativa colegial, que representa a Igreja apostólica como um todo.

3) Em Lc 9,13-15 um diálogo entre Jesus e os Doze prepara a cena do milagre. No centro está um imperativo de Jesus: “Dai-lhe vós mesmos de comer”, semelhante ao de Eliseu (2Rs 4,42-44), As objeções dos Doze enfatizam as dificuldades a serem superadas pela comunidade apostólica: 1) escassez de alimento; 2) necessidade de comprar alimento; 3) a grandeza da multidão. Em Lc 9,10 os doze apóstolos retornaram da missão de anunciar e curar. Agora, recebem a missão de alimentar a multidão, mediando o milagre operado por Jesus. Assim, vai se definindo a missão apostólica que conduzirá a Igreja do Ressuscitado após Pentecostes: ministros da Palavra, da cura e da Eucaristia.

Na segunda ordem “Mandai o povo sentar-se em grupos de cinquenta” o verbo “fazer recostar” (kataklíno) indica o “acomodar-se reclinando o corpo próximo à mesa para a ceia. Dividir a massa de mais de cinco mil homens em grupos de cinquenta refere-se à dimensão prática do servir: os discípulos deverão se mover com facilidade por entre os grupos. Os Doze, voltam a ser chamados de discípulos, pois continuam no seguimento do mestre e executam exatamente a sua palavra.

4) Em Lc 9,16 os verbos “tomar”, “abençoar”, “partir” e “dar” retomam literalmente as palavras da instituição da Eucaristia na última ceia (Lc 22,19) e, também a ceia com o Ressuscitado no relato de Emaús (Lc 24,30). Não se deve interpretar que Jesus tenha celebrado a Eucaristia aqui (9,16) ou na narrativa de Emaús (Lc 24,30), mas compreender que o evangelista concebe a instituição da Eucaristia (Lc 22) em uma série de refeições que aprofundam o tema da comensalidade no Reino de Deus.

Lucas apresenta Jesus à mesa com publicanos e pecadores para chamá-los à conversão (Lc 5,27-32) e, por isso, é ridicularizado como “comilão e beberrão” (Lc 7,31-34). Aos que o criticavam por comer com pecadores (Lc 15,1-2; 19,7), Jesus contra as três parábolas da festa da misericórdia (Lc 15,3-32). Além disso, apresenta os excluídos como convidados preferenciais (Lc 14,7-14). Assim, os discípulos que testemunharam a instituição da Eucaristia sabiam ser, eles mesmos, pecadores-perdoados e excluídos-acolhidos na festa da misericórdia.

Antes das palavras da instituição da Eucaristia (Lc 22,19-20), Jesus anuncia que só comerá e beberá novamente com os discípulos no Reino de Deus (Lc 22,14-19). A ceia com os discípulos em Emaús sinaliza: com a ressurreição o Reino de Deus chegou! A participação na Eucaristia é antecipação do Reino.

5) Em Lc 9,16, a conclusão do milagre da multiplicação dos pães (Lc 9,17) revela seu significado na série de refeições do Senhor: “Todos comeram e ficaram satisfeitos”. Toda a multidão, que representa o povo de Deus, o Israel reconstituído pelo Messias, é prodigiosamente alimentada. O Verbo “satisfazer”, “saciar” (chortazein) já havia sido anunciado nas bem-aventuranças “Bem-aventurados vós que agora passais fome, pois sereis saciados!” (Lc 6,21). Ele retoma diversos textos do Antigo Testamento que anunciavam uma inesperada abundância com que Deus saciaria seu povo (Sl 37,19; 81,17; 132,15) em um banquete oferecido no tempo final (Is 26,6-10). Assim, o milagre da multiplicação dos pães é um sinal de que a Eucaristia é o dom superabundante com que Jesus favoreceu a Igreja. O único pão que pode saciar a nossa fome. A “sobra” indica o transbordamento da graça oferecida por Deus (2Rs 4,42-44). Os pedaços, no entanto, não devem ser desperdiçados. A palavra “klasmata”, (fragmento do que foi distribuído) é empregada na Didaché (catecismo cristão escrito entre 95 e 100 d.C.) para indicar as partículas da Eucaristia que restam depois da celebração litúrgica. Os doze cestos, se referem ao ministério dos apóstolos. A imagem de cada apóstolo com seu cesto servindo pães aos diversos grupos da multidão e depois recolhendo os pães que restaram, ilustra o ministério conferido a Igreja apostólica de ser dispensado da Eucaristia para o povo de Deus restaurado.

 A primeira leitura recorda o encontro do patriarca Abraão com o rei-sacerdote Melquisedec. Após a cidade de Sodoma, onde morava Ló, ser dominada por uma coalisão de quatro reis (Gn 14,1-12), Abrão (como farão mais tarde os “juízes” israelitas) reúne um exército reata a cidade com seu sobrinho Ló, sua família e pertences (Gn 14,13-16) O Rei de Sodoma agradecido vem ao encontro de Abraão (Gn 14,17), no vale de Save (2Sm 18,18), a 400 metros de Jerusalém, pretendendo oferecer-lhe os despojos da guerra. O patriarca, porém, rejeita a oferta, esperando que a benção venha somente de Deus (Gn 14,212)

A história da expedição vitoriosa de Abraão é surpreendentemente interrompida pela breve narração do encontro do patriarca de Israel com Melquisedec, Rei de Salém e sacerdote do Deus Altíssimo (El ‘Elyon). O rei traz “pão e vinho” para alimentar Abrão e seus homens e abençoa o patriarca, louvando ao Deus Altíssimo, criador do céu e da terra, que concedeu a vitória. A narrativa se encerra.com Abraão entregando o dízimo de tudo ao rei-sacerdote.

A tradição israelita posterior identificou Salém com Jerusalém (Sl 76,3) e o sacerdócio de Melquisedec com o sacerdócio conferido aos descendentes de Davi (Sl 109). A narrativa, portanto, coloca o patriarca dos hebreus em relação com a Cidade Santa, conquistada por Davi. O Salmo 109 identifica o sacerdócio de Melquisedec com o sacerdócio conferido ao rei Davi ao futuro Messias, o qual reuniria em si mesmo a realeza e o sacerdócio. O sacerdócio régio “segundo a ordem” do rei Melquisedec representa um sacerdócio estabelecido por ordem divina e reconhecido por Abraão ao pagar o dízimo dos despojos e ao receber a benção, sem, no entanto, pertencer instituição do sacerdócio levítico.

Assim, Hb 5-7 fará uma interpretação desses textos a luz do Mistério de Cristo, citando a “ordem de Melquisedec” (Hb 5,6.10; 6,20) para explicar que Jesus reúne em si mesmo a realeza e o sacerdócio. Como Gn 14 não descreve a genealogia de Melquisedec, o antigo rei sacerdote se torna imagem do Filho: também Jesus tem seu sacerdócio garantido pela ordem divina e não pela pertença a uma estirpe sacerdotal da Antiga Aliança. Assim, como Abraão reconheceu o sacerdócio de Melquisedec (pagando o dízimo e recebendo a benção), os descendentes de Abraão precisariam compreender que o sacerdócio israelita da Antiga Aliança deveria esperar e reconhecer um sacerdócio maior: o sacerdócio de Cristo.

O Salmo 109(110) é formado por dois oráculos pronunciados através de um profeta ao rei davídico. Os oráculos nos versículos 1 e 4 dividem o salmo em duas partes: 1-3 e 4-7. No v. 1, “Palavra do Senhor ao meu Senhor”, o orador é um profeta que fala em nome do Senhor (YHWH) ao senhor (o rei) para que seja entronizado. O segundo oráculo “Tu és sacerdote eternamente, segundo a ordem do rei Melquisedec!”, indica a sucessão da monarquia ao status (sacerdotal) dos antigos reis de Sião (Gn 14,18-24). Desse modo, o salmo exalta o rei-sacerdote do AT e o Messias do NT a entronização pela qual Deus manifesta sua autoridade real (v. 1-3) e sacerdotal (4-7).

A segunda leitura, tirada da primeira carta de São Paulo aos Coríntios (11,23-26), foi escrita pelo apóstolo, em Éfeso, na primavera de 54 d.C., para a Igreja de Corinto, a qual sofria diversos tipos de divisões internas. Para o apóstolo, a resposta para superar as divisões estava em retornar à coerência com o mistério celebrado na Eucaristia.

Na introdução (1Cor 11,17-22), Paulo denuncia a incoerência entre as divisões na comunidade de Corinto e a celebração da “Ceia do Senhor”: “cada um se apressa em comer a sua própria ceia e, enquanto um passa fome, outro se embriaga” (v. 21). A solução é retornar a fonte da memória eucarística.

A narrativa da instituição da Eucaristia transmitida em 1Cor 11,17-34 6 o testemunho mais antigo do Novo Testamento acerca da doutrina eucarística (apenas 21 anos após o evento). São Paulo se considera testemunha da tradição que remonta ao próprio Senhor Jesus, na noite em que foi entregue (v. 23)

As palavras sobre o pão e cálice com vinho indicam que o pão é o “corpo que é dado” (v. 24) e o vinho é “a nova aliança, em meu sangue” (v. 25), isto é, o pão e o vinho consagrados tornam presentes a existência (corpo) do Senhor livremente doada na morte violenta (sangue) na cruz.

Duas vezes, São Paulo repete o mandato de “fazer a memória de Jesus”. O termo “memorial” (anamnésis) indica a atualização em atualização em forma liturgia da “morte do Senhor” (v. 26). Para São Paulo, a paixão de Jesus foi um ato de amor: “Deus, contudo, prova o seu amor para com pelo fato de que Cristo morreu por nós, quando ainda éramos pecado (Rm 5,8). Por isso, celebrar a Eucaristia é anunciar o amor, isto anunciar a morte do Senhor até sua segunda vinda gloriosa: “Todae vezes, de fato, que comerdes deste pão e beberdes deste cálice, estareis proclamando a morte do Senhor, até que ele venha” (1Cor 11,26).

A conclusão do apóstolo (1Cor 11,27-34) é que o anúncio pressuposto na Celebração Eucarística, exige por coerência ética: que todos participem da Ceia do Senhor e, portanto, não pode haver divisões (desamor) entre os membros da comunidade, pois essas são um testemunho antieucarístico. Os cristãos de Corinto devem “discernir corpo”, isto é, a presença de Cristo no “pão” e no “vinho”, bem como nos membros da comunidade e “esperar uns pelos outros” (v. 33).

  1. Atualizando a Palavra

A celebração da Festa do Corpo e Sangue de Cristo leva o povo ao louvor e à reflexão sobre a presença do Senhor entre nós. Ainda que o dia de hoje seja dedicado ao louvor da presença sacramental de Jesus, é interessante ressaltar que, pela participação neste banquete toda a comunidade torna-se também presença do Senhor ressuscitado. Ainda, ao comungarmos do Corpo e Sangue de Jesus, entramos em comunhão – como o próprio nome sugere – com o projeto de Jesus projeto de amor, serviço, entrega, doação.

Celebrar a Eucaristia significa compartilhar com Jesus a sua missão (Lc 9,1-6) e, também o caminho da cruz (Lc 9,18-27). A Eucaristia exige, pois, compromisso. Quem a recebe, só o faz maneira efetiva, se está disposto a mergulhar no projeto de Jesus e abraçar suas propostas. E de onde nos vem força para tamanho desafio?  É da própria Eucaristia. Ela é a fonte prometida por Jesus a si tana: fonte de vida que gera a própria vida em si. 

  1. Ligando a Palavra com a ação litúrgica

A festa celebrada nesta liturgia proclama a Eucaristia celebrada e adorada. A procissão com Santíssimo Sacramento é um preceito deste dia. Que este momento seja experienciado de modo a aprofundar o sentido das leituras proclamadas e vivenciar a comunhão estabelecida na participação no banquete eucarístico.

 

Fonte: Viver e aprofundar a alegria do evangelho – Roteiros Homiléticos do Tempo Comum I – Junho/Agosto – Ano 5 nº 24 – p. 10-17 – 2019 ano C – Edições CNBB.

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