Reuniões com autoridades

Assisti, uma vez, a uma reunião assim:
O objetivo da reunião era o de pressionar o prefeito para que ele marcasse uma data para começar uma obra que os moradores reclamavam há tempo. O prefeito dizia que concordava com a realização da obra, mas com muita habilidade dava um jeito e não marcava a data de seu início. Seu objetivo claro era o de ganhar tempo. Estava o pessoal da Comissão e o prefeito nessa discussão sobre o prazo, quando um dos moradores pede a palavra e pergunta, todo solene: – “Sr. Prefeito, V. Ex.ª respeita o povo? ” Ah!  Mas era uma pergunta deste tipo que o prefeito mais queria. Botou uma cara de vítima, tremeu a voz, e falou meia hora sobre sua dedicação ao povo, os sacrifícios que fez pelo povo, o sofrimento que sua mulher e seus filhos tiveram que suportar por causa do respeito que ele tinha pelo povo! Uma telenovela das boas! Resultado: a plateia, formada por gente simples, de coração aberto e pouco informada, acabou caindo na lábia do politicão vivo que era o prefeito e saudou o final do seu discurso com uma salva de palmas.

A partir daí, não foi difícil ao prefeito manobrar a reunião e sair dela sem se comprometer com o prazo.

Por que ocorreu esse resultado tão prejudicial aos moradores? Porque a comissão não explicou claramente, aos participantes, o objetivo da reunião, o que cada um devia perguntar como reagir às esquivas do prefeito.

As reuniões com os adversários das reivindicações (…) precisam ser cuidadosamente preparadas e a fala de cada um constitui uma das partes da divisão do trabalho.

Há pouco tempo, assisti a uma reunião preparatória deste tipo. Nessa reunião, vários moradores foram encarregados de estudar bem um dos aspectos da reivindicação para fazer perguntas específicas, diretas, precisas ao funcionário convidado para debater com os moradores; tomaram uma decisão importante: cada pergunta a ser feita foi distribuída a dois companheiros para que eles a estudassem bem. No debate com o funcionário convidado, um deles deveria prestar bem atenção na resposta, para fazer outra pergunta logo em seguida, caso o funcionário não desse uma resposta clara.

Achei o sistema muito interessante, pois, de fato, numa discussão entre uma pessoa formada, com muitos anos de escola (e ainda mais especialista num assunto), e um trabalhador, com poucos anos de escola e leigo no assunto, a pessoa formada leva certa vantagem na argumentação. Tendo que discutir com dois, sobre o nosso ponto, essa vantagem fica diminuída.

 

(Sampaio, Plínio de Arruda. Construindo o Poder Popular. São Paulo, Paulinas, 1982. p. 78-80)

 

Fonte: Livro: OSPB, Autor: Claudino Piletti, Editora: Ática, pág. 114.

 

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