14° DOMINGO DO TEMPO COMUM

7 de julho de 2019

Leituras:  Is 66,10-14c / SI 65(66),1-3.4-5,6-7.16.20 / GI 6,14-18 / Lc 10,1-12.17-20 

  1. Situando-nos

A liturgia do 14° Domingo do Tempo Comum apresenta a missão dos seguidores de Jesus. O número dos setenta e dois discípulos apresentados por Lucas, chama nossa atenção para um conceito mais amplo que os Doze cuja missão se encontra também descrita em Marcos 6,7-13 (e nos textos paralelos Mt 10,1.7-14; Lc 9,1-6).

A primeira leitura associa-se ao belo anúncio de paz para Jerusalém em Is 66,10-14c. No final do livro de Isaías, Jerusalém, a Nova Sião, é apresentada como esposa e mãe que com seus seios “sacia” de consolação e de leite os seus filhos que renascem como povo. A expressão “a paz como um rio” é uma figura messiânica que Cristo trouxe à Jerusalém Celeste, que é a “nossa mãe, a Igreja”, o Israel de Deus de que fala a segunda leitura (GI 4,26-27), ao anunciar “para o Israel de Deus, paz e misericórdia” (GI 6,16)

Assim, o tema principal para este domingo se define na palavra paz (shalom) que exprime bem mais do que a ausência de guerra: inclui saúde, fecundidade, prosperidade, amizade com Deus e com os outros; é, portanto, sinônimo de alegria, felicidade total.

  1. Recordando a Palavra

A primeira leitura encerra o livro do profeta Isaías. Jerusalém havia sido destruída – tinha sofrido dura prova e seu povo levado para o exílio da Babilônia. Tal acontecimento é visto como consequência da infidelidade do povo à Aliança com Deus. Neste período dos capítulos finais de Isaías (Terceiro Isaías), Jerusalém já havia retornado, mas ainda vivia em condições penosas. A maioria da população de Jerusalém está mergulhada na miséria; os inimigos atacam continuamente e põe em causa o esforço da reconstrução; a esperança está em crise. Os profetas da época procuram, então, apresentar uma mensagem de salvação e esperança, a fim de que o povo recobre forças e confie em Deus. É nesse contexto que podemos situar o texto de Is 66,10-14.

O profeta Isaías convida a todos a se alegrarem por Jerusalém, pois a nação será restaurada depois da experiência do fracasso e da dor. A glória de Deus chegará à cidade e a paz será estendida como uma torrente que transborda (v. 12). Prosperidade e riqueza são anunciados a seus filhos. Todos se reunirão na nova cidade e verão a glória divina. Jerusalém será uma cidade nova, rejuvenescida e reconstruída. Deus vai reunir, consolar, curar e proteger o seu povo. O relacionamento mais íntimo e afetuoso prevalecerá entre Israel dos últimos tempos e seu Deus. O Deus da Aliança é sempre fiel, amigo, terno e carinhoso como uma mãe que nos leva no seu colo de ternura e nos consola. Deus ama o seu povo e vai fazer tudo por ele. Virá ao encontro dos homens de Israel para lhes trazer a salvação. Daí o convite à alegria.

A segunda leitura, pertence à conclusão da Carta aos Gálatas. É uma espécie de remate no qual Paulo resume toda a sua argumentação anterior a propósito de Cristo e da salvação. Paulo enfatiza que se gloria apenas na Cruz de Cristo, não no êxito humano. Falar da “cruz de Jesus Cristo” é falar do dom total da vida, da entrega de si mesmo por amor. Por isso, o apóstolo mostra que a glória mundana não tem valor, mas sim o sacrifício redentor da Cruz. O mérito humano e esforço pessoal legalista são inúteis para a salvação.

Na perspectiva paulina, a identificação do cristão com a cruz de Cristo é que fará surgir um homem novo, que a exemplo de Cristo será capaz de amar sem medida. Essa nova criatura terá de superar o pecado e a morte para chegar à vida plena, à felicidade total. 

A paz que Paulo havia invocado sobre seus leitores no início da carta (1,3) é agora adicionada a misericórdia sobre o povo de Israel. A Igreja dos homens e mulheres redimidos que creem que a salvação vem pela graça, por meio da fé, é o Israel de Deus. É na misericórdia de Deus que tem início todas as nossas esperanças e é somente dela que flui a paz permanente de coração.

O Salmo 65(66) é composto de duas partes: a primeira é um hino de louvor a Deus ação de graças entoado por uma comunidade (v. 1-12), a segunda parte é uma ação de graças individual (v. 13-20). Relata as poderosas libertações de Deus (v.1-12), resultando na adoração por parte de Israel (v. 13-20). O que o Senhor fez historicamente por seu povo, a salvação que operou, serve de base para um convite de louvor a todas as criaturas. E um convite para que todos participem da adoração reconhecendo o seu senhorio universal e perpétuo.

  1. Atualizando a Palavra

A paz sobre a qual falam as duas primeiras leituras é também o tema do Evangelho, que apresenta a ampla missão do grupo de discípulos. “Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: A paz esteja nesta casa! (…) Curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: O Reino de Deus está próximo de vós!” (Lc 10,5.9)

O Evangelho situa-nos, outra vez, no contexto da caminhada final de Jesus para Jerusalém, durante a qual Jesus vai oferecendo aos discípulos a plenitude da revelação do Pai e preparando-os para continuar, após a sua partida, a missão de levar o Evangelho a todos os homens.

A missão que anteriormente era destinada ao grupo dos doze apóstolos é expandida para setenta e dois discípulos que, conforme Lucas (10,1-17), foram mandados por Jesus depois da missão dos Doze (9,1-6). Os doze apóstolos representam a missão a Israel (doze tribos) e os setenta e dois discípulos nos remetem aos setenta e dois povos mencionados em Gn 10 e os setenta e dois profetas-anciãos de Nm 11,16-30, que segundo a tradição rabínica, são os porta-vozes da Tora para a humanidade. Significa, portanto, que a proposta de Jesus é uma proposta universal, destinada a todos os povos, de todas as raças.

Lucas, ensina que o cristão tem de continuar no mundo a missão de Jesus, tornando-se testemunha, para todos os homens, da proposta de salvação que Cristo veio trazer.

Após esta apresentação inicial, Lucas passa a descrever a forma como a missão se deve concretizar. Em primeiro lugar, avisa sobre a dificuldade da missão: os discípulos são enviados como cordeiros para o meio de lobos (v. 3). Retrata a situação do discípulo fiel, frente à hostilidade do mundo.

Em segundo lugar, há uma exigência de pobreza e simplicidade para os discípulos em missão: os discípulos não devem levar consigo nem bolsa, nem alforje, nem sandálias, não devem deter-se a saudar ninguém pelo caminho (v. 4); também não devem saltar de casa em casa (v.7). As indicações de não levar nada para o caminho sugerem que a força do Evangelho não reside nos meios materiais, mas na força libertadora da Palavra; a indicação de não saudar ninguém pelo caminho lembra a urgência da missão (que não permite deter-se nas intermináveis saudações); a recomendação de que não devem pular de casa em casa sugere que a preocupação fundamental dos discípulos deve ser a dedicação total à missão e não de encontrar uma hospitalidade mais confortável. Todos estes conselhos são para que os discípulos não percam o foco da missão: o anúncio do Reino de Deus.

Eles devem iniciar invocando “a paz” (v. 5-6). Não se trata aqui, apenas, da saudação normal entre os judeus, mas do anúncio da paz messiânica que preside ao Reino. E O anúncio de um mundo novo fraterno, de harmonia com Deus e entre os homens mutuamente, de bem-estar, de felicidade. Esse anúncio deve ser complementado por gestos concretos, que mostrem a presença do Reino no meio dos homens (v. 9).

As palavras de ameaça a propósito das cidades que se recusam a acolher a mensagem (v. 10-11) supõem que a rejeição do Reino trará consequências nefastas à vida daqueles que escolhem continuar a viver em caminhos de egoísmo, de orgulho e de autossuficiência.

Nos v. 17-20, Lucas, em uma linguagem simbólica, se refere ao resultado da ação missionária dos discípulos. Estes informam com muita alegria que, usando o nome de Jesus, conseguiram expulsar os demônios. Jesus ajuda-os a discernir. Se eles conseguiram expulsar os demônios, foi precisamente porque Ele lhes deu o poder. E Jesus acrescenta que o mais importante não é expulsar os demônios, mas ter os seus nomes escritos no céu (Lc 10,20). Ter o próprio nome escrito no céu significa ser conhecido e amado pelo Pai.

  1. Ligando a Palavra com a ação litúrgica

Anunciar a paz de Cristo não deve ser realizado só por palavras, mas por atos. Não basta falar da paz, é preciso mostrar em que ela consiste, por meio de atos que demonstrem a proximidade do Reino de Deus. A mensagem da paz é salvadora e muitos a esperam, por isso Jesus manda anunciá-la como algo que vem juntamente com o Reino de Deus. O próprio Deus quer nos sustentar com a partilha do seu mistério de amor e de vida, no Mistério Pascal de seu Filho. Vivendo esta realidade, participaremos melhor das celebrações litúrgicas, memorial da glória de nosso grande Deus e Salvador.

 

Fonte: Viver e aprofundar a alegria do evangelho – Roteiros Homiléticos do Tempo Comum I – Junho/Agosto – Ano 5 nº 24 – p. 30-34 – 2019 ano C – Edições CNBB.

 

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