15° DOMINGO DO TEMPO COMUM (segundo comentário)

14 de julho de 2019

Leituras: Dt 30,10-14 / SI 68(69), 14.17.30-31.33-34.36.37 / CI 1,15-20 / Lc 10,25-37

  1. Situando-nos

Quando ultrapassamos a metade do ano litúrgico, o convite a nós endereçado nos faz pensar em nossos caminhos: observar o que está perto e o que está distante. Eis um momento de parada no deserto, de reflexão, de reposicionamento de nossas ações, nossos pensamentos e nossas palavras.

O que está perto é o que está ao nosso alcance, aquilo que se pode dispor sem muita dificuldade; o que não significa que sempre o fazemos ou estamos dispostos a fazê-lo. O que está distante é o que colocamos, muitas vezes, como ideal e – não raro – como desculpa porque não atingimos, não buscamos e não conseguimos. Curiosamente, esta liturgia nos indica, claramente, o modo como devemos nos comportar para estar dispostos a acolher o que está perto e nos preparar para o que está mais distante.

Vejamos.

  1. Recordando a Palavra

O Livro que abre nossa questão sobre o perto e o longe é, neste domingo, o Deuteronômio. Os eventos narrados nele situam o povo do lado de lá do Jordão, antes de sua entrada na terra prometida. Diferentemente dos outros quatro livros do Pentateuco, é composto na forma de discurso de Moisés, em uma exortação ao povo de ontem sobre as questões que os poderiam afligir. No entanto, eis um texto atemporal, um convite perene a escutar a Palavra de Deus em quaisquer que sejam as situações.

De modo emblemático, o versículo 11 é um dos mais contundentes. Ali, é dito ao povo que está ao seu alcance cumprir o mandamento que hoje lhe é pedido, qual seja, converter-se ao Senhor de todo coração. O que se segue é, exatamente, uma recordação de que é possível cumpri-lo desde que se tenha boa vontade e atenção; coração aberto e disposição firme. A entrada na terra e tudo o que advir desta entrada deve estar diante dos olhos dos israelitas como oportunidade para atenção à Palavra de Deus. O “hoje” do texto reafirma seu caráter de atemporalidade, saltando aos nossos olhos como uma mensagem ao nosso próprio coração.

O Salmista, talvez por isso, manifesta-se atento à voz de Deus, elevando a ele a sua oração. O Deus que ele invoca é “favorável”, cheio de “imenso amor”, dispensador de uma graça suave” e que olha por ele “com imenso amor”. Essa maravilhosa profissão de fé demonstra os frutos de um coração que escuta a Palavra de Deus, reconhecendo nele sua eterna misericórdia; o Deus que se aproxima daqueles que estão distantes.

São Paulo, por sua vez, exorta os colossenses a aproximarem-se de Jesus, que é “a imagem do Deus invisível”. Em Cristo, Deus se aproxima do ser humano, demonstrando, uma vez mais, sua imensa compaixão. Assim, a Igreja, corpo do Senhor, deve aprender a se abrir cada vez mais para aquele que é sua “Cabeça”.

O Evangelho deste domingo traz, como um grande presente para todos nós, uma das mais maravilhosas pérolas de São Lucas: a parábola da proximidade por excelência. Leitor e leitora percebem que a contenda entre Jesus e o mestre da lei se inicia com base no Deuteronômio, ali no lugar em que comumente chamamos de “credo de Israel” (Dt 6,4). O mandamento da proximidade, da alteridade e do cuidado com a pessoa está na ordem da discussão, levando Jesus a propor duas perguntas fundamentais para aquele que o interpela: “O que está escrito na lei? Como lês?”

Os que leem este relato notam que o sacerdote, o levita e o tano “veem”, mas o “ver” do Samaritano é diferente; somente ele “vê” de fato. Reparamos, também, que o samaritano e o levita chegam perto, mas só quem se “aproxima” é o samaritano. O verbo usado para o sacerdote e o levita alude ao significado de “passar pelo lado oposto”. O v. 31 é interessante, o sacerdote passa “sem ter combinado antes” (do grego, sygruria), “por coincidência” c, segundo a tradução da liturgia, por acaso”.

Três dos verbos estão ligados à linguagem médica no v. 34: atar (fazer curativos), derramar (óleo e vinho) e cuidar. Essa sutileza realça ainda mais a proximidade do Samaritano. Pelo texto, podemos notar que a maioria dos verbos aparece relacionada ao samaritano, contra pouquíssimos que aludem ao sacerdote e ao levita. São Lucas está nos mostrando o modo raso de ver dos representantes do culto e do ensino, indicando que a regra de comportamento é fundamental para ser cristão e isso passa pelo outro, pela dor do outro.

A volta que o texto faz para chegar ao seu final demonstra a pedagogia de Jesus como foi lido no discurso de Moisés, no Deuteronômio (primeira leitura): está perto de cada um de nós a possibilidade de ser próximo, de ter olhos e ouvidos abertos à necessidade do outro e, assim, cumprir o mandamento de ouvir e converter-se ao Senhor. Esta mensagem está em plena sintonia com o que pediram os profetas ao longo da história de Israel; sintoniza-se, também, com tudo o que Jesus pediu aos seus discípulos e estes aos que vieram depois deles (vide a belíssima Carta de São Tiago). Fazer o mesmo que o outro fez de bom é reproduzir a vida, a criação e a misericórdia do Senhor.

  1. Atualizando a Palavra

São Lucas não se cansa de mostrar, ao longo do Evangelho, até onde pode chegar a baixeza humana: a humilhação (tapeinosis) de Maria (1,48); a mulher que chora sobre os pés de Jesus em casa de Simão (7,38); o filho que cuida de porcos (15,15); o pobre Lázaro jogado à porta do rico (17,20); o Filho do Homem que sua sangue (22,44). Até aqui só falamos de sofrimentos reais. Insistimos nisto porque o mundo moderno tende a nos convencer que os sofrimentos só são psíquicos crises de consciência, depressão e desânimo. Não desconsideramos nada disso, mas essa tendência pode obscurecer a fome real, a falta de causa real, a doença real, o desprezo real que nossos olhos não veem mais. Hoje, no Brasil e em várias partes do mundo, o sofrimento é real, a morte visível e a dor insuportável.

As duas interrogações de Jesus são atemporais. Elas ecoam, em nossos dias, como um chamado ao compromisso. Não basta, portanto, saber que está escrito na lei; mais do que isso: implica no compromisso de saber ler.

  1. Ligando a Palavra com a ação litúrgica

Neste domingo, os gestos de acolhida na porta da Igreja poderiam ser intensificados. Ao longo da celebração poderiam ser feitos, também, alguns sinais que aproximassem as pessoas umas das outras. Quem sabe não se pudesse cobrir uma parte do templo com uma tenda simbólica, a fim de indicar a hospitalidade, o carinho e a recepção de cada pessoa no mistério da Eucaristia? Ou, talvez, essa tenda cobrisse apenas o ambão, demonstrando que a Palavra de Deus pede abrigo em nossos corações e nos incentiva a ir na direção do outro?

 

Fonte: Viver e aprofundar a alegria do evangelho – Roteiros Homiléticos do Tempo Comum I – Junho/Agosto – Ano 5 nº 24 – p. 35-38 – 2019 ano C – Edições CNBB.

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